
O tempo voa e nos deixa, por vezes, aturdidos com a rapidez de seu passar. E nos deixamos ficar vendo seu lépido voar, que larga para trás o que não somos capazes de guardar, posto que incapazes de domá-lo e dele nos assenhorar.
Vã utopia. Reiterada mania de querermos fazê-lo estancar e esperar. Resta tudo o mais. Resta a música. Ficamos nós e nossa angústia. Nós e a loucura que nos lançará, inexoravelmente, num futuro desconhecido.
Tanta divagação para enfim chegar a Atemporal, CD independente de Adolar Marin. Segundo Houaiss, atemporal é “adj.2g. (c1940) 1 em que não há tempo; fora do domínio do tempo; intemporal 2 em que se faz abstração do tempo (…)”.
Tudo a ver com Adolar Marin, que escreveu e disse: “Às vezes sou tão grande que não caibo em mim. Outras horas, tão pequeno que em meu corpo, como um frasco, sou um líquido no fim”.
Atemporal é álbum lançado já há algum tempo. Mas graças a um mercado que dá pouca ou quase nenhuma importância a lançamentos independentes, e contrariando todos os lugares (in)comuns usados para expressar o seu passar, o tempo para os independentes parece que não adianta. É como se o disco independente parasse no tempo, à espera de quem o leve em direção a um momento que está mil compassos à frente do presente.
Adolar Marin, compositor, violonista e guitarrista, nos dá um álbum com 15 canções inéditas. Quatorze são dele. Destas, seis em parceria com Léo Nogueira. Bom poeta, Léo também compôs “Arco-Íris” com Élio Camalle, única música no CD que não é de Adolar.
Atemporal é sugestivo nome para um disco que não se prende a estilos nem a fórmulas; que foge de estereótipos e encontra na diversidade a melhor maneira de se expressar. Cada faixa tem uma levada; cada música, um ritmo; cada verso, a cara da canção que o emoldura.
Cantor de recursos razoáveis, Adolar canta para demonstrar seu talento de compositor. Bom instrumentista, seu violão e sua guitarra adornam os inspirados arranjos que escreveu junto com o também violonista, guitarrista e bandolinista Dino Barioni. Juntos, eles produziram Atemporal.
Por suas faixas brilham ora a admirável flauta de Léa Freire e o enérgico contrabaixo de Sizão Machado, ora o mágico acordeom de Dominguinhos, a bela voz de Virgínia Rosa e o canto de Élio Camalle.
Você, amiga, gosta de samba? Em Atemporal tem. Quer choro? Tem. De baião, você gosta? Também tem. E tem valsa e tem modinha e tem poesia. Muita poesia da boa, inspirada. Feito a de Léo Nogueira para “Nave Mãe”: “E eu que sou puro, pintei quadros no inferno/Com as tintas que há no breu/Construí muros e tornei-me um interno/Desse hospício que sou eu”. Fique certo, amigo, Atemporal é pródigo em música de qualidade.
Mesmo que o tempo não se curve aos anseios que temos de alcançá-lo, é da música, cantada ou instrumental, independente ou não, que poderemos também nos valer para tornar o passar da vida mais suave, menos insípido: Atemporal.
Comentário de Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
Publicado no Diário do Comércio (SP), Meio Norte (Teresina), A Gazeta (Cuiabá), Jornal da Cidade (Poços de Caldas) e Brazilian Voice (uma publicação voltada para os brasileiros residentes em toda costa leste dos EUA).
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